Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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O CONSTRUCIONISMO SOCIAL: MICROPOLÍTICA E RESISTÊNCIA
José Henrique Monteiro da Fonseca, Degmar Francisco dos Anjos, Ilze Maria Gonçalves da Costa, Camila Elias da Silva Gonçalves, Patricia Akamine Nita

Última alteração: 05-07-19

Resumo


Este trabalho é fruto de pesquisa com 12 jovens na faixa etária entre 15 a 24 anos, em idade escolar, com ensino médio concluso ou em fase de conclusão (todos na rede pública de ensino), tendo como lócus o Serviço de Atendimento Especializado (SAE) no município de Cuiabá – MT. Trata-se de uma pesquisa de viés qualitativo que teve por objetivo analisar os sentidos atribuídos por jovens com diagnóstico positivo para HIV, frente suas vivências no ambiente de ensino, com foco no processo ensino-aprendizagem e nas relações de poder referentes aos múltiplos universos presentes na escola bem como os estigmas e preconceitos. Trabalhou-se enquanto olhar teórico-metodológico com o Construcionismo Social, por meio da análise de repertórios linguísticos, com intuito de investigar a produção de sentidos enunciados por práticas discursivas (SPINK, 2012). É neste ponto que o presente resumo procura focar no Construcionismo Social, não apenas enquanto base teórico-metodológica, o que por si já demonstra não só na presente pesquisa, mas em tantas outras já produzidas no Brasil, uma excelente e vasta instrumentação teórico-metodológica que visa os sentidos que cada sujeito atribui diante de suas vivencias nos mais variados contextos, onde na pesquisa realizada tratou-se de um contexto  da juventude que vive com HIV e seus sentidos relacionais no ambiente da escola, bem como as possibilidades de um olhar para as múltiplas maneiras de existência e de subjetivação. Mas, nesse trabalho, pensa-se também o Construcionismo Social enquanto instrumento de micropolíticas e de resistência social em meio aos contextos de pesquisa-intervenção na comunidade. A contribuição dessa abordagem para a Psicologia é um convite para traçar novos olhares e sentidos para as múltiplas formas de transformações pelo qual a sociedade contemporânea se pauta e se respalda em suas relações. Através do Construcionismo Social, podemos passar a compreender o mundo de formas múltiplas, o que possibilita observar a diversidade de discursos e verdades, de cada sujeito, o qual se constrói e atribui sentidos, baseados em seus valores, vivencias e ideias, diferenciando-se assim do modelo empírico que possui uma verdade concreta e generalista. Diante dos resultados, emergiram relatos concernentes ao recebimento e impacto do diagnóstico, sentidos de medo, desespero e paralisação de modo temporário e agudo, vivencias de preconceitos, isolamento, despreparo da escola em lidar com tais temáticas como diversidades, sexualidades, HIV/Aids/Preconceitos. Entretanto, é possível destacar sentidos de empoderamento, superação e ressignificação diante da nova realidade enquanto um modo outro de se subjetivar e de existir. É importante mencionar que nesses diálogos e nessas práticas dialógicas das entrevistas – com a metodologia sócio-construcionista – tais jovens tiveram a oportunidade de realizar articulações subjetivas frente a sua condição, contexto e sentidos, podendo transformá-los em novos sentidos ou re-sentidos como é o relato de Arsham, 21 anos: “[...]no futuro eu me vejo diferente, mais velho, pensamento com mais segurança. Vou formar, me estabilizar financeiramente, ter família, se resolver e tudo mais [...]”. E também os sentidos críticos e empoderados do jovem Joep, 24 anos que apontam as possibilidades das mudanças de olhares e enfrentamentos do mundo escolar frente às diversidades e sexualidades: “Preparada a escola não está não, mas pode se preparar [...] se as escolas começarem a falar mais sobre o assunto talvez ajude bastante [...] acho que a escola deve falar sobre tudo, não só falar sobre o uso de preservativo ou que tem tratamento, mas lidar com todos os pontos, tem muita coisa que precisa ser costurada”. Aqui podemos perceber um movimento de resistência o que é parte condicionante de toda pessoa, pois resistir não é somente um ato arbitrário e de negação a algo, mas também poderá ser um ato de entender, de perceber, de interpretar, criar e mudar condições das múltiplas formas de se viver (FOUCAULT, 1979, 2008; GUATTARI, 1992). Diante do exposto, acredita-se que o Construcionismo Social e suas práticas de pesquisa, já demonstra em si atos de resistência e de micropolítica, uma vez que caminha na contramão do modelo empírico de verdades prontas e finais, questionando e desnaturalizando o que fora ideologicamente naturalizado e estabelecido enquanto modelo: linguístico, filosófico e ideológico no mundo.

Palavras-chave: Construcionismo Social, Resistências, Micropolíticas, Multiplicidades.

 

Bibliografia

FONSECA, José Henrique Monteiro da. Jovens Vivendo com HIV/AIDS: sentidos a partir de suas vivências no ambiente escolar. Dissertação de Mestrado, Universidade de Cuiabá (UNIC). Cuiabá, Jun/2018.http://repositorio.pgsskroton.com.br//handle/123456789/22803

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

GUATARRI, F. (1992). Caosmose: um novo paradigma estético. (Ana Lúcia de Oliveira & Lúcia Cláudia Leão, Trad.). São Paulo: Editora 34.

FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

SPINK, M, J. (org). Práticas Discursivas e Produção de sentidos no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. Edição Virtual. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais. 2012.