Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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ESCALA DE ESTRESSE ACADÊMICO: ESTRUTURA FATORIAL, PRECISÃO E CORRELATOS COM VARIÁVEIS DEMOGRÁFICAS E PROCRASTINAÇÃO
Bianca Soler, Hallison José Gonçalves de Souza, Rita de Cassia Machado Rosa Rodrigues e Silva, Thaina Rocha dos Santos, Renan Pereira Monteiro

Última alteração: 22-07-19

Resumo


O ingresso na universidade acarreta uma série de mudanças na vida do estudante, proporcionando a vivência de novas experiências e desafios, exigindo adaptações (Almeida & Soares, 2003). Especificamente, a universidade demanda esforço e dedicação do estudante, que deve dar conta de uma série de atividades (e.g., tutoria, monitoria), pesquisa (e.g., iniciação científica, participação em núcleos de pesquisa) e extensão, além da carga de disciplinas, provas e seminários. Quando o estudante avalia que não têm recursos para lidar com tais demandas, o estresse pode surgir como resposta, propiciando o adoecimento mental (Kohn & Frazer, 1986). A propósito, o estresse pode ser entendido como um desequilíbrio no organismo ocasionado por estímulos que, se persistirem, ocasionam prejuízos diversos (e.g., cansaço, lapsos de memória, baixa imunidade; Mondardo & Pedon, 2005). Além disso, o esgotamento e desgaste ocasionados pelo estresse podem ser uma das causas da procrastinação. Estudantes podem adiar suas tarefas devido à fadiga e ao cansaço (Schraw & Wadkins, 2007), o que acaba gerando um acumulo de conteúdo e intensificando o estresse (Chun & Choi, 2005; Schraw & Wadkins, 2007). Nesta direção, considerando a importância do estresse acadêmico, o presente estudo objetivou verificar os parâmetros psicométricos da Escala de Estresse Acadêmico (Freires et al., 2018). Ademais, buscamos verificar em que medida e direção o estresse acadêmico se relaciona com a procrastinação e variáveis demográficas. Para tanto, participaram 187 universitários, com média de idade de 23,8 anos (DP = 7,01), a maioria do sexo feminino (77%), estudantes de Direito (17,6%), que estão no terceiro semestre da graduação (25,1%) e que se autodeclararam de classe média (38%). Estes responderam a Escala de Estresse Acadêmico (EEA) e a Escala Reduzida de Procrastinação (PASS). Os dados foram coletados por meio de um formulário online e tabulados e analisados por meio do software SPSS. Inicialmente, buscando evidências de validade fatorial e consistência interna da EEA, observou-se que os valores do KMO (0,87) e do teste de esfericidade de Bartlett [χ² (78) = 849,519, p < 0,001] indicaram a adequação da matriz de correlação para o tratamento multivariado da análise fatorial. A partir de uma Análise dos Componentes Principais, verificou-se que o critério de Kaiser apontou dois componentes com autovalores maiores que 1, entretanto, inspecionando a representação gráfica dos valores próprios, observou-se evidência em torno de um componente. Para dirimir as dúvidas em relação à estrutura fatorial, calculou-se uma Análise Paralela, critério mais robusto e preciso para a determinação de fatores, sendo que este critério apoiou a decisão em torno da estrutura unifatorial. Tal estrutura apresentou autovalores de 5,23, explicando 40,3% da variância total, sendo que os itens apresentaram cargas fatoriais variando entre 0,47 (Item 10. Tenho me sentido incomodado por me dedicar a atividades abaixo do meu nível de habilidade) a 0,73 (Item 12. A falta de compreensão sobre quais são as minhas responsabilidades na universidade tem me causado irritação). No conjunto, verificamos que os treze itens da EAA apresentaram adequada consistência interna (α = 0,87). Assegurado os parâmetros psicométricos da medida de estresse acadêmico, buscou-se conhecer em que medida e direção esta variável se relaciona com variáveis demográficas e procrastinação. Por meio de uma análise de correlação de Pearson, verificou-se que os alunos que estão em semestres mais avançados da graduação apresentam maior nível de estresse acadêmico (r = 0,19; p < 0,01), assim como os estudantes de classe socioeconômica mais baixa (r = -0,16; p < 0,05). Verificou-se, ainda, que quanto maior o nível de estresse acadêmico, maior será o nível de procrastinação (r = 0,24; p < 0,01). Ademais, os resultados das correlações podem dar importantes insights para se pensar em estratégias de intervenção para reduzir o nível de estresse acadêmico, sobretudo por identificar que existem grupos de risco mais propensos a desenvolvê-lo. Apesar dos importantes achados, o presente estudo não é isento de limitações, a exemplo da amostragem não probabilística, impossibilitando generalizações. Em possibilidades futuras é importante checar se o estresse pode variar em razão dos diferentes cursos de graduação, bem como analisar o papel de proteção de variáveis como a resiliência e das vivências acadêmicas positivas. Conclui-se que estudos dessa natureza são fundamentais, possibilitando o delineamento de propostas interventivas baseadas em evidências, com foco para a melhoria da saúde mental dos estudantes.

Palavras-chave: Estresse acadêmico, Medida, Procrastinação, Universitário.

 

Referências Bibliográficas

 

Almeida, L. S., & Soares, A. P. (2003). Os estudantes universitários: sucesso escolar e o desenvolvimento psicossocial. In: E. Mercuri & S. A. J. Polydoro (Orgs), Estudante universitário: Características e experiências de formação (pp.15-40). Taubaté, SP: Cabral. Disponível em: http://hdl.handle.net/1822/12086

 

Chu, A. H. C., & Choi, J. N. (2005). Rethinking procrastination: positive effects of "active" procrastination behavior on attitudes and performance. The Journal of Social Psychology, 145(3), 245-264. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar.org/c1b1/f754fd7b9e285529943d8657341413c1c7cf.pdf

 

Freires, L. A; Sousa, E. A.; Loureto, G. D. L.; Gouveia, V. V., & Monteiro, R. P. (2018) Estresse acadêmico: adaptação e evidências psicométricas de uma medida. Psicologia em Pesquisa, 12(3), 22-32. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/psipesq/v12n3/03.pdf

 

Kohn, J. P., & Frazer, G. H. (1986). An academic stress scale: identification and rated importance of academic stressors. Psychological Reports, 59(2), 415-426. Disponível em: https://psycnet.apa.org/record/1988-09214-001

 

Mondardo, A. H.; Pedon, E. A. (2005). Estresse e desempenho acadêmico em estudantes universitários. Revista de Ciências Humanas, 6 (6). Disponível em: http://revistas.fw.uri.br/index.php/revistadech/article/view/262

 

Schraw, G & Wadkins, T. (2007). Doing the things we do: a grounded theory of academic procrastination. Journal of Educational Psychology 99(1), 12-25. Disponível em: https://psycnet.apa.org/record/2007-01726-002