Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Impacto do treinamento na qualidade de vida e bem-estar dos trabalhadores: um relato de experiência
Pamella de Almeida Fernandes, Valéria Ventura Miranda, Maria Aparecida Campos

Última alteração: 02-07-19

Resumo


Este relato de experiência retrata a intervenção realizada na disciplina de Estágio Básico III em Contextos Organizacionais e do Trabalho ministrada no quinto semestre do curso de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) campus Cuiabá, sendo campo de estágio o Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) da UFMT. A observação in loco revelou a necessidade de treinamento com os recepcionistas do Serviço. De acordo com Marras (2016), treinamento é um processo educacional de assimilação cultural, que tem como objetivo transferir ou requalificar conhecimentos, habilidade e atitudes (CHA) inerentes à realização de tarefas ou ao aperfeiçoamento no trabalho. Este processo se constitui dos seguintes passos: 1) levantamento de necessidades de treinamento, 2) planejamento do treinamento, 3) realização do treinamento e 4) aplicação das avaliações em quatro níveis: avaliação de reação, aprendizagem, mudança de comportamento e de resultado. O levantamento das necessidades se deu por meio de observações e entrevistas com os recepcionistas, psicólogas e supervisores de estágio e resultou na identificação das seguintes competências para serem trabalhadas no treinamento: empatia, organização, relacionamento interpessoal, comprometimento, proatividade, pontualidade e assiduidade, comunicação e atenção. Após o término do treinamento foram aplicadas as avaliações de reação e aprendizagem e, decorridos 15 dias, foram aplicadas as avaliações de mudança de comportamento e resultados. Na avaliação de reação, 75% dos recepcionistas avaliaram os temas apresentados, a duração do curso e o planejamento como muito bom e 25% como bom; os itens de apoio e curso de modo geral foram considerados muito bons por 100%; as habilidades dos instrutores quanto ao domínio do assunto, comunicação clara e objetiva e manter o grupo atento ao assunto tiveram as médias de 4.66, 4.33 e 4.66 numa escala de 0 a 5; 67% apontaram que o curso proporcionou novos conhecimentos e 33% reciclagem. A avaliação de aprendizagem mostrou que os conteúdos foram absorvidos e compreendidos pelos participantes. Na avaliação de mudança de comportamento os recepcionistas apontaram mudanças no relacionamento interpessoal e na conduta profissional. As psicólogas relataram, na avaliação de resultados, melhorias na organização e comunicação, no relacionamento interpessoal, bem como empenho e atenção nas tarefas do dia-a-dia, nos atendimentos, na solução de problemas e diminuição de atrasos. Além do que foi apontado na avaliação de resultados, outros fatores foram destacados na reunião de devolutiva com o Núcleo Gestor do SPA, principalmente no que se refere ao aumento do bem-estar no trabalho, o que pode ser compreendido como um conceito integrado que engloba vínculos positivos com o trabalho (satisfação e envolvimento) e com a organização (comprometimento organizacional afetivo) (SIQUEIRA e PADOVAM, 2008). Foi verificado que o treinamento proporcionou maior integração entre os recepcionistas (estagiários e técnicos-administrativos), bem como o estabelecimento de vínculos entre eles, de modo que passaram a se comunicar e trocar informações inerentes aos acontecimentos de cada turno, a se organizarem e ajudarem mutuamente nas tarefas. Desse modo, o treinamento impactou positivamente na qualidade de vida dos recepcionistas. Segundo Limongi-França (2015, apud FARSEN, 2018, p. 33), qualidade de vida pode ser compreendida como bem-estar pessoal no trabalho, envolvendo dimensões das necessidades humanas, biológicas, psicológicas, sociais e organizacionais. Diante dessas dimensões do modelo biopsicossocial e organizacional (BPSO-96) de Limongi-França (2006), pode-se dizer que o treinamento conseguiu atingir a dimensão psicológica, visto que os recepcionistas se sentiram valorizados e motivados, a partir da percepção da importância do seu papel na organização; e a dimensão organizacional, uma vez que saíram do treinamento com um plano de ação traçado, o que lhes proporcionou a oportunidade de serem sujeitos do seu trabalho, solucionando e propondo soluções para problemas. Embora o objetivo do treinamento tenha sido o desenvolvimento de competências necessárias para o desempenho no trabalho, o impacto no bem-estar e qualidade de vida dos trabalhadores foi notório, pois proporcionou um ambiente mais saudável. Ademais, as transformações benéficas ocorridas após o treinamento oportunizaram o encaminhamento de que essa prática seja continuada, independentemente da entrada de novos recepcionistas, a fim de contribuir para a constante melhoria da integração dos recepcionistas e bem-estar no trabalho.

Palavras chaves: Treinamento, Qualidade de vida no trabalho, Bem-estar.

FARSEN, Thaís Cristine et al. Qualidade de vida, Bem-estar e Felicidade no Trabalho: sinônimos ou conceitos que se diferenciam?. Interação em Psicologia, v. 22, n. 1, 2018.

LIMONGI-FRANÇA, Ana Cristina; YUMI SUGISHITA KANIKADAN, Andréa. A construção de um instrumento de coleta de dados a partir do Modelo de Indicadores Biopsicossocial e Organizacional–BPSO-96 e do Modelo de Competências do Bem-Estar–BEO, sobre Gestão de Qualidade de Vida no Trabalho. REAd-Revista Eletrônica de Administração, v. 12, n. 6, 2006.

MARRAS, Jean Pierre. Administração de recursos humanos: do operacional ao estratégico. 15º ed. São Paulo: Saraiva, 2016.

SIQUEIRA, Mirlene Maria Matias; PADOVAM, Valquiria Aparecida Rossi. Bases teóricas de bem-estar subjetivo, bem-estar psicológico, bem-estar no trabalho. Psic. Teor. E Pesq., Brasília, v. 24, n. 2, p. 201-2019, junho, 2008.