Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Dos limites à viabilidade da psicanálise nas ruas
KÊNIA SANTANA DA CRUZ, Luiza Carolina dos Santos Campelo

Última alteração: 30-06-19

Resumo


INTRODUÇÃO Este trabalho foi desenvolvido com o objetivo de verificar as possibilidades e limites da escuta da população de rua, fora de um consultório tradicional. O mesmo tem a escuta como método de pesquisa, à luz da teoria psicanalítica. Os sérios efeitos sociais como uso abusivo de álcool e outras drogas, falta de moradia, trabalho, educação e saúde, podem ser pensados como uma questão histórica. Podemos pensar também em um direcionamento para delinear o olhar voltado para as políticas públicas, saúde mental e de como a psicanálise pode estar presente nas ruas. Verificar a viabilidade da psicanálise nas ruas e sua esfera de interlocução junto a população de rua.  DESENVOLVIMENTO. Trabalhar na rua é fazer dela um setting. Mas o que consiste o setting? Poder-se-ia arriscar aqui tratar a rua como um setting terapêutico? Existem requisitos para a composição do setting, entre eles um local, horário, pagamento? Porém uma questão a se pensar sobre o pagamento seria com o tempo que o morador de rua oferece a sua fala, poderia servir  nesse caso como pagamento. Entre tantas questões da teoria que envolve o setting, podemos delimitar algumas delas para agregar a rua como um setting terapêutico, pois se baseia o setting em incluir um método, uma técnica e ética. (FREUD,1913). Pode-se pensar que a rua não é como todo um setting, mas que se esbarra na totalidade do mesmo quando se percebe que a condução do psicanalista é composta de um método, uma técnica e ética. ANÁLISE Sendo assim, o setting é composto por estes dois integrantes: paciente e analista.  Nesta composição, dá se mais uma averiguação da teoria psicanalítica na aplicabilidade na rua, que é o dispositivo analítico, sendo o mesmo composto por paciente e analista. Assim é possível entender, o que arrisco dizer, quanto ao porquê a rua possa ser considerada como um setting terapêutico. Quando se atende a totalidade do setting com ética na condução do trabalho é integralmente necessário que possamos falar da responsabilidade que permeia a profissão, essa responsabilidade tramita-se em pressupostos que conduzem o manejo com os pacientes, esse território é cheio de ambiguidades e divergências que o impossibilita de realizar seus possíveis desejos, que muitas vezes não estão associados a sua saúde física e sim com sua saúde mental. Pode ser considerada como condições territoriais que geram ambiguidades e divergências a falta de reconhecimento social desses indivíduos e consequentemente a desvalorização de suas histórias de vida, com isso ocorre a despersonalização do sujeito e suas referências identitárias perdidas privando-o assumir a posição de sujeito demandante e desejante. CONCLUSÃO Na condução do trabalho nesse território composto por diversas questões que possam impossibilitar esse indivíduo de buscar a sua realização, o psicanalista deverá trabalhar dentro deste território como um todo. Entende-se que o trabalho se dá no manejo das angústias que envolvem este sujeito e não só as deles, mas da sociedade como um todo, esse local em que transborda a cultura, diz Tanis e Khouri: Somente a partir de uma linguagem encarnada, que ao mesmo tempo mascara e revela, encontrarmos as condições que possibilitam a criação de novos sentidos, da transformação das posições subjetivas de simbolizações subjetivas cristalizadas oferecendo condições de simbolização e sublimação. Somos corpo que fala e somos falados. Esse é o modo pelo qual nossa inscrição na cultura se manifesta (2009, p. 21). De tal forma que o trabalho do psicanalista é de entender que seu trabalho se dará a um total de sentidos, que possibilitem olhares para estes indivíduos que se encontram em total vulnerabilidade social, ofertando-lhes escuta de seu inconsciente. Assim buscar auxilia-los a produzir outras questões para além do contexto social que determina o seu lugar na sociedade e por esta razão estão fadados a morrerem nesta condição. Segundo Bleger (1977) apud Broid (1992) a psicanálise "é uma teoria, uma terapia e uma investigação” (1999, p. 28), ou seja, a psicanálise não restringe-se apenas as questões teóricas, vai para além disso, muito mais do que possamos imaginar, é uma análise do desejo de si e do Outro, e é no desejo que nasce a investigação, a investigação de buscar saber sobre esse desejo.

 

Palavras chave: Psicanálise, Território, Escuta, Setting

 

Referências Bibliográficas

BROIDE, Jorge. A Psicoterapia Psicanalítica na rua realizada através de grupo operativo: a rua enquanto instituição das populações marginalizadas. Psicol. cienc. prof.,Brasília, v.12, n.2, p.24-33,  1992. Disponível em<http://www.scielo.br/scielo.php ?script=sci_arttext&pid=S1414-98931992000200005&lng=en&nrm=iso>.

FREUD, S. Sobre o início do tratamento: Novas recomendações sobre a técnica da Psicanálise (1913) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.12. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

TANIS, Bernardo. KHOURI, Magda Guimarães. A psicanálise nas tramas da cidade. Revista Brasileira de Psicanálise. São Paulo Volume 44, n. 2, p.189-192, 2010.