Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Riscos de doença ocupacional dos servidores docentes: breve análise do contexto das universidades federais brasileiras
André Baptista Leite, Alessandro Vinicius de Paula

Última alteração: 27-09-19

Resumo


Este texto apresenta uma breve análise do contexto de doença ocupacional, tendo por objetivo identificar se existe relação entre doença ocupacional e os afastamentos médicos dos servidores docentes da Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT, de modo a propor ações de promoção de melhorias das condições de trabalho e na promoção da saúde do trabalhador docente. Na última década, a expansão do ensino superior observada no Brasil foi um avanço na democratização do acesso ao ensino superior no cenário nacional, no entanto, essa expansão não foi acompanhada na mesma proporção de investimentos que oportunizariam a melhoria das condições do trabalho docente, através de ações como a  ampliação nas condições do espaço físico, quantidade de alunos por sala de aula, ausência de equipamentos técnicos e pedagógicos, bem como a sobrecarga de atividades extras. Tais fatores podem estar diretamente ligados ao aumento do adoecimento em docentes do ensino superior das universidades federais, o que pode causar também o seu afastamento do local de trabalho (MAZARO, 2014).  O sucesso das universidades na atualidade, na maioria das vezes, se traduz no produtivismo acadêmico por parte dos docentes/pesquisadores que sofrem as consequências da falta de investimento e sucateamento da universidade pública, tendo, por muitas vezes, um ambiente insalubre, sem as condições básicas de segurança, higiene e saúde no trabalho (PAULA, 2015). E considerando ainda, a dimensão social das Instituições Federais de Ensino (IFEs) no Brasil, que possuem a responsabilidade de formação cidadã dos discentes, torna-se cada vez mais comum a ocorrências de estresse, depressão, esgotamento físico e psíquico desses profissionais, por não terem condições de executar suas atividades integralmente. No início dos anos 1980, a Psicopatologia do Trabalho passou a se preocupar em fundamentar uma investigação clínica do sofrimento psíquico e sua relação com o trabalho. Nessa nova abordagem do trabalho, a clínica psicológica pode, então, ultrapassar seus conceitos filosóficos, econômicos e sociológicos, passando a ser definido como uma psicopatologia, sendo que a etiologia (o agente causal) dessa psicopatologia tem sua origem nas pressões do trabalho; pressões essas que põem em xeque o equilíbrio psíquico e a saúde mental na organização do trabalho (CODO et al., 1993). Ainda são escassas as pesquisas sobre os afastamentos laborais de servidores públicos por doença, logo, há pouco material sobre o perfil de morbidade desses trabalhadores. Todavia, os dados sobre absenteísmo-doença dos servidores públicos têm aumentado, tanto em âmbito municipal, estadual quanto federal e não há como determinar uma única causa prevalente para absenteísmo, pois a mesma pode variar em função da heterogeneidade de servidores, diferenças culturais, regionais, exposição climática, ambiente de trabalho, formação acadêmica e outros fatores que podem influenciar o processo saúde-doença (LEÃO, 2012). Ao considerarmos, especificamente, o cotidiano de trabalho dos servidores docentes e suas demandas, podem surgir manifestações comportamentais com causa emocional, bem como outra diversidade de sintomas físicos e psíquicos relacionados ao trabalho docente (LEÃO, 2012). Essas manifestações psicológicas, por muitas vezes, são percebidas com indiferença pelos seus pares, gestores e alunos. Essa fragilidade emocional, quando não observada e não tratada, pode evoluir e ocasionar um adoecimento do profissional e consequentemente, o afastamento de seu ambiente de trabalho (LEÃO, 2012). Nessa perspectiva, considerando a real possibilidade do adoecimento destes docentes, observa-se a necessidade de investigar a saúde do servidor público-docente, através dos registros de afastamentos homologados pela Perícia Médica Oficial da Unidade de Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor Público Federal (SIASS) da UFMT - Cuiabá/MT. Para análise dos dados quantitativos e qualitativos dos afastamentos a serem investigados, será empregada a análise de conteúdo como uma das técnicas de tratamento de dados, com base na proposta de Bardin (2011). Nessa perspectiva, espera-se identificar se os afastamentos médicos ocorridos na UFMT estão inter-relacionadas com o ambiente de trabalho docente, a fim de compreender quais são os fatores que motivam os afastamentos, bem como as possibilidades de intervenções e melhorias no ambiente de trabalho  e portanto, o estudo será capaz de contribuir com a área de gestão de pessoas da organização com sugestões de ações efetivas de prevenção a saúde do trabalhador, bem estar social  e satisfação no ambiente de trabalho.

 

Palavras-chave: doença ocupacional, docentes, saúde do trabalhador, Instituições Federais de Ensino (IFEs).

Bibliografia

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MAZARO, Rita Eliana. O desempenho docente no ensino superior: Uma análise dos fatores de qualidade. 2014. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

PAULA, AV de. Qualidade de vida no trabalho de professores de instituições federais de ensino superior: um estudo em duas universidades brasileiras. Universidade Federal de Lavras. 2015. Tese de Doutorado. Tese de Doutorado, PPGA, Lavras.