Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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INTERSECÇÕES ENTRE O SABER ACADÊMICO EM PSICOLOGIA E CULTURA: PENSANDO A CONSTRUÇÃO DE UMA PRÁTICA
Wallace Rodolfo Pereira da Silva

Última alteração: 08-07-19

Resumo


Este trabalho surgiu a partir da inquietação que, justamente, pensava como a população de uma cidade do interior do estado de Mato Grosso enxergava o saber psicológico e como esse saber se relacionava à cultura. E, como recorte, a Psicanálise foi a escolha pelo entendimento de se tratar de um saber que tem uma relação profunda com a cultura. Além disso, foi vislumbrada uma análise que estivesse em diálogo com outros saberes que, sem sombra de dúvida, pensam a influência cultural a séculos, como a antropologia. O olhar precisava, então, partir de um lugar que era dxs sujeitxs implicados na construção da sociedade e que, obviamente, são os que lidam com o sofrimento nas suas mais variadas formas e formatos. O objetivo era, então, tirar esse saber do consultório e levar aos bairros e, para isso, além da discussão teórica, propor ações na principal praça da cidade. E quando falamos em sair do consultório não é uma tentativa de dizer que o setting clássico não seja importante, é evidente que existe a necessidade desse lugar em que a escuta aconteça. O que se pode entender, então, é que ir para os bairros é esse movimento de chegar a boa parte da população que não consegue ter acesso a esse lugar clássico e, especialmente, pensar a psicologia e psicanálise com as interseccionalidades de classe, etnia/raça e gênero. Também se tinha o anseio de compreender, junto à população, como esses conceitos se aplicavam efetivamente nas suas vidas e rotinas. O que se conclui é que, sem sombra de dúvida, o ensino da Psicologia, Psicanálise e outros precisam levar em conta as culturas dos mais variados grupos humanos, sem desvalorizar todo o saber já construído, mas, ao mesmo tempo, não caindo em um lugar de dureza teórica que não permita a construção do novo. Esse novo saber precisa levar em consideração as mais variadas construções sociais e as mais variadas relações, entendendo que a vida é plástica e não precisa, em nenhum momento, se adequar aos padrões sociais impostos. O que se percebe, na verdade, é a necessidade de empoderamento dxs sujeitxs para a construção dos próprios valores e verdades. Evidentemente que, ao se pensar uma proposta de ressignificação teórico-prática, não levamos em conta somente um fazer profissional, mas, buscamos, na medida que as intervenções foram crescendo, modos de dizer e fazer que, seguramente, levavam a uma reflexão num sentido coletivo da prática do profissional psicólogo. Entendemos toda construção e saber como um ato político e, nesse sentido, é fundamental compreender a política como esse espaço que pensa o bem público e, nesse sentido, não negarmos os abismos sociais construídos historicamente no nosso país. Ato político é, então, pensar qual saúde mental tem sido construída e pra quem essa saúde mental? Quem está por trás dessa construção de saúde? Ato político é, por exemplo, pensar na influência de Fanon (2008) para pensar a saúde mental da população negra que, como ele subinha, muitas vezes tem seu direito a ter saúde mental roubado ainda hoje. (Especialmente em cidades de interior). Ao propor uma pesquisa que reflete sobre o fazer profissional é, evidente, um desafio e, ao mesmo tempo, uma tentativa de reescrever a história daqueles que o sistema esqueceu. Ficou evidente que, para além da questão de classe envolvida, a psicologia é espaço privilegiado para se repensar práticas e para matricialmente enfrentando, assim, aquilo que é da ordem do público.

 

Palavras-Chaves: Psicologia; Cultura; Psicanálise; Prática.

REFERÊNCIAS

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