Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Psicologia Social Comunitária e MST – tão longe, tão perto!
Mírian Toshiko Sewo, Maria de Fátima Quintal de Freitas

Última alteração: 19-06-19

Resumo


A Psicologia Social Comunitária surgiu na década de 70, em plena ditadura no Brasil, a partir dos trabalhos da professora Silvia Lane, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e de seus alunos junto às comunidades da periferia de São Paulo, com o objetivo de contribuir com estas em seus processos de luta por melhores condições de vida e, ao mesmo tempo, de construir algo que se contrapusesse ao modelo tradicional de psicologia que se praticava até então (FREITAS, 2012; LANE, 2014). O Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi gestado também na ditadura militar, na década de 70, a partir da organização dos trabalhadores rurais incentivados pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) para fazer o enfrentamento ao governo que, nos últimos anos, adotara uma política agrícola ainda mais concentradora e excludente e para, efetivamente, lutar pela reforma agrária e as condições para que ela se realizasse. Psicologia Social Comunitária e MST são frutos da mesma época, têm influências teóricas semelhantes como o materialismo histórico e dialético e Paulo Freire, possuem objetivos que compartilham o mesmo ideal de sociedade mais justa e solidária e atuam com as pessoas que vivenciam de forma mais incisiva os efeitos de um modelo de sistema explorador, opressor e excludente. No entanto, a Psicologia Social Comunitária ainda é bastante desconhecida pelo conjunto do MST. Ainda que o desconhecimento da Psicologia Social Comunitária não seja um fato restrito ao MST, pois de modo geral, a maioria da população conhece da Psicologia as suas práticas mais tradicionais, principalmente a clínica, não deixa de ser uma questão intrigante pela tamanha proximidade dos dois campos. A Psicologia Social Comunitária também pouco tem escrito sobre o MST. Uma busca pela plataforma scielo com o descritor “Psicologia Social Comunitária” associado aos descritores “MST”, “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”, “Movimento Sem Terra” e “assentamentos rurais” não apresenta nenhum artigo. A mesma busca retirando-se o “social” da Psicologia Social Comunitária também apresenta resultados nulos. Para verificar se o que está ocorrendo é a não produção teórica e sua respectiva publicação, foi procurado nos anais da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, realizada no Brasil em 2014, comunicações orais que fizessem a articulação da Psicologia Social Comunitária com o MST. Foram encontrados apenas três relatos, sendo que um tratava das contribuições do MST para a sua formação enquanto estudante de psicologia (ROMERO & SEWO, 2014), um de pesquisa (SVARTMAN & SILVA, 2014) e apenas um de projeto de extensão (PEREIRA; HENRIQUE; ALBUQUERQUE; VELÔSO & OLIVEIRA, 2014). Novamente foi retirado o termo “social” da Psicologia Social Comunitária e com isso apareceram mais três relatos sendo um de projeto de extensão (NEPOMUCENO & MARIA, 2014), um de pesquisa (KARRIEM & AHMED, 2014) e um de reflexão sobre possibilidade de atuação (LEITE, 2014). Considerando a dimensão do evento, encontrar apenas dois projetos de extensão junto ao MST alerta para o pouco envolvimento da Psicologia Social Comunitária com o movimento. Em todas essas buscas é preciso ressalvar que é provável que existam trabalhos da Psicologia Social Comunitária junto ao movimento que não foram apresentados nesse evento e que utilizaram outros descritores para os artigos, mas, a existência de um ou outro trabalho não atenuam a questão que se aponta aqui, qual seja, o pouco envolvimento da Psicologia Social Comunitária com o MST. E quais seriam os motivos para esse pouco envolvimento? É possível pensar em algumas questões, entre elas a localização dos acampamentos e assentamentos no meio rural dificultando o acesso, a relação estabelecida com a profissão de psicólogo e sua atividade enquanto mercadoria e as implicações dessa relação na formação dos psicólogos. Com esse distanciamento da Psicologia Social Comunitária do MST, um dos maiores movimentos sociais do Brasil e da América Latina, a Psicologia Social Comunitária perde a oportunidade histórica de se construir junto com um movimento social que aglutina em si as experiências de luta pela terra e a formulação teórica resultante desta; e, consequentemente, também pouco contribui com uma das lutas mais marcantes da história do povo brasileiro.

Palavras-chave: MST, Psicologia Social Comunitária, compromisso social da Psicologia, formação.

Referências Bibliográficas

FREITAS, Maria de Fátima Quintal de. Intervenção psicossocial e compromisso: desafios às políticas públicas. In JACÓ-VILELA, AM., SATO, L. (Orgs.). Diálogos em psicologia social [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2012. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/vfgfh/pdf/jaco-9788579820601-24.pdf>. Acesso em 16 de nov. 2016.

KARRIEM, Abdulrazak & AHMED, Rashid Sayed. Social Movement Struggles for Social Justice: Lessons from the South Africa and Brazil. In: 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014, Fortaleza. Anais Eletrônicos da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014. v. 1. p. 809-810.

LANE, Silvia Tatiana Maurer. Histórico e fundamentos da psicologia comunitária no Brasil. In: CAMPOS, R.H.F. (Org.). Psicologia Social Comunitária - da solidariedade à autonomia. 19ª. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

LEITE, Jader Ferreira. Psicologia Comunitária no contexto da reforma agrária brasileira: refletindo algumas possibilidades de atuação profissional. In: 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014, Fortaleza. Anais Eletrônicos da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014. v. 1. p. 396-397.

NEPOMUCENO, Bárbara Barbosa & MOREIRA, Ana Ester Maria. Projeto de Extensão Cirandas de Saberes: as trilhas da psicologia comunitária e o MST. In: 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014, Fortaleza. Anais Eletrônicos da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014. v. 1. p. 408-409.

PEREIRA, Elen Lucio Pereira; HENRIQUE, Jordanya Reginaldo; ALBUQUERQUE Leonam Amitaf Ferreira Pinto de; VELÔSO, Thelma Maria Grisi & OLIVEIRA, Vanessa Silva de. Uma prática de Psicologia Social Comunitária em um assentamento do MST. In: 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014, Fortaleza. Anais Eletrônicos da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014. v. 1. p. 728-729.

ROMERO, Aleth da Graça Amorim & SEWO, Mírian Toshiko. A participação no Congresso Nacional do MST: Reflexões e aprendizados. In: 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014, Fortaleza. Anais Eletrônicos da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014. v. 1. p. 691.

SVARTMAN, Bernardo Parodi; SILVA, Danilo de Carvalho. Laços Sociais e Participação Política: o Trabalho Coletivo e o Desenvolvimento de Alianças Comunitárias. In: 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014, Fortaleza. Anais Eletrônicos da 5ª Conferência Internacional de Psicologia Comunitária, 2014. v. 1. p. 711.

 

Palavras-chave: MST, Psicologia Social Comunitária, compromisso social da Psicologia, formação.