Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Comprometimento organizacional dos servidores técnicos-administrativos de uma instituição de ensino pública do centro oeste brasileiro
Emerson José da Silva, Alessandro Vinicius de Paula

Última alteração: 27-09-19

Resumo


Desde a reforma administrativa do Estado brasileiro ocorrida na década de 1990, o serviço público passa por um processo de adaptação e adequação às novas formas de realizar o trabalho no setor público. A ênfase nos resultados e na entrega de um serviço público mais eficiente e eficaz exige dos servidores públicos a mesma necessidade de adaptação  a estas novas regras. A exigência de constante capacitação profissional pode ser vista como ponto positivo no desenvolvimento pessoal e organizacional deste trabalhador se não viesse acompanhada de pressão e intensificação desse trabalho. O aumento excessivo da carga de trabalho e as exigências não tão claras na realização das funções são fatores que afetam a saúde mental e física dos trabalhadores. De acordo com a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2018), esses fatores aliados a uma má gestão da organização dessas mudanças geram insegurança e estresse relacionados ao trabalho. Este momento de mudanças pede uma organização que tenha como característica em suas políticas de gestão de pessoas, ações preventivas e que promovam a saúde psíquica, física e social dos seus funcionários. A administração pública tem como característica em suas ações de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), práticas que colocam o servidor público como peça de ajuste às necessidades da organização, com foco no alcance dos resultados e no aumento da produtividade, além de caráter essencialmente assistencialista nessas ações. O comprometimento organizacional é um indicador de QVT que representa a união entre os objetivos pessoais desse servidor público e os objetivos da instituição. A Universidade estudada (doravante denominada como Universidade F) é uma instituição pública da esfera federal e também sofre mudanças com essa reorganização determinada pela reforma administrativa. Os servidores técnicos-administrativos (TAEs) da referida Universidade, são considerados responsáveis pela execução dos trâmites operacionais e pela organização das áreas acadêmicas e administrativas. Toda essa necessidade de adaptação e cobranças recai diretamente sobre essa classe de trabalhadores que sofrem as ações de estresse de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. O objetivo deste estudo foi identificar o nível de comprometimento organizacional dos servidores TAEs lotados na Secretaria de Gestão de Pessoas da Universidade F, diante dessa pressão e das novas exigências laborais advindas da globalização. Empregando um estudo do tipo survey, foi construído na plataforma eletrônica do Google Forms®️ um questionário/formulário no qual foram disponibilizadas as sete Escalas Bases do Comprometimento Organizacional (EBACO) desenvolvidas por Medeiros (2003). Esse questionário foi enviado por email aos servidores técnicos-administrativos lotados nas três coordenações da Secretaria de Gestão de Pessoas da Universidade F. O comprometimento organizacional dos servidores TAEs foi mensurado e analisado através das seguintes escalas: afetiva; obrigação em permanecer; obrigação pelo desempenho; afiliativa;  falta de recompensas e oportunidades; linha consistente de oportunidades; escassez de alternativas. Considerando apenas análise dos resultados dos servidores TAEs das três coordenações da Secretaria de Gestão de Pessoas da Universidade F investigada, percebemos que tais servidores públicos estão comprometidos positivamente com a Universidade F quanto aos itens identificação com a filosofia e objetivos organizacionais, quanto ao bom desempenho organizacional e quanto às oportunidades e recompensas oferecidas pela organização. Quanto às escalas Obrigação em Permanecer e Afiliativa, tiveram resultado negativo quanto ao nível de comprometimento com a organização. O baixo comprometimento em permanecer indica que os servidores não possuem um vínculo afetivo potente com a organização, indicando que a instituição pode ser um trampolim para um outro cargo público que ofereça melhores salários ou status. O baixo resultado na escala Afiliativa, traduz que o servidor não se sente membro da organização, indicando a percepção que esse trabalhador não sente o reconhecimento dos colegas e da própria Universidade F. O baixo comprometimento em permanecer mostra pessoas que não estão afetivamente ligadas a Universidade F mas ao mesmo tempo possuem um bom desempenho na organização. O baixo comprometimento afiliativo indica que o não envolvimento afetivo com a organização, afeta diretamente as relações com o ambiente e pessoas da organização, e que os servidores pesquisados ao mesmo tempo que buscam uma carreira sólida, preferem construí-las solitariamente, sem vínculos emocionais.

Palavras chave: comprometimento organizacional; serviço público; gestão de pessoas; saúde do trabalhador

REFERÊNCIAS

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