Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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A ESCUTA CLÍNICA DE CRIANÇAS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL EM INSTITUIÇÃO HOSPITALAR
Débora Marques da Costa Souza Guimarães, Rosangela katia Sanches Mazzorana Ribeiro

Última alteração: 22-06-19

Resumo


Este trabalho consiste em uma experiência de estágio realizado na disciplina “Estágio Supervisionado I – Contextos de Saúde e Sofrimento Psíquico, oferecido pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aos discentes do 9º semestre. A atividade de estágio contempla atendimentos realizados nas segundas-feiras no período vespertino e quintas-feiras no período matutino ao HUJM, supervisão semanal para discussão dos casos atendidos e apresentações de temas referentes ao abuso sexual contra crianças e adolescentes e ao conteúdo programático proposto pela supervisora, a partir das demandas que eventualmente surgem em decorrência dos atendimentos. Este projeto de estágio é desenvolvido no Programa de Atendimento a Vítimas de Violência Sexual (PAVVS), vinculado a Unidade Psicossocial, do Hospital Universitário Júlio Muller (HUJM). Participam do PAVVS crianças e/ou adolescentes com idade máxima de 12 anos que sofreram agressão sexual, ou quando há suspeita de terem sofrido este tipo de agressão. O consentimento para a participação no programa acontece mediante o Termo de Consentimento entre Usuário e Programa de Atendimento Às Vítimas de Violência Sexual, assinado pelos pais e/ou cuidadores responsáveis, supervisora e estagiária. A violência constitui-se uma preocupante demanda social visto que se trata de um fenômeno complexo e que pode deixar marcar profundas em suas vítimas. Toda atuação de proteção de crianças e adolescentes deve ser respaldada no Estatuto da Criança e Adolescente (ECA, Brasil, 1990). As ações devem ser planejadas e os órgãos que fazem parte da rede precisam conhecer com clareza sua função bem como todo o funcionamento da rede a fim de que todos possam trabalhar visando um objetivo comum, evitando desta forma que as vítimas sejam expostas a outras formas de violência, como a exemplo, o processo de revitimização (Habigzang, Hatzenberger & Koller, 2012). OPAVVS também acolhe os pais e/ou cuidadores responsáveis pelas crianças e adolescentes supostamente vítimas de violência sexual. O caso Eli (nome fictício, 10 anos) foi escolhido por ser um exemplo do que pode erroneamente acontecer na rede de proteção. A criança foi atendida por esta estagiária.O acompanhamento psicológico foi orientado com base na teoria psicanalítica e utilizados recursos durante as sessões como desenhos,contos de fada e discurso.A capacidade de criar e de contar histórias consiste em uma maneira de lidar com as diversas realidades da vida como a fome, a miséria, a violência sexual infantil, as desigualdades sociais, as injustiças, etc. Tal capacidade contribui para que a criança se torne mais flexível emocionalmente e também favorece no processo de criação de soluções para os possíveis conflitos que serão vivenciados ao longo da vida. O conteúdo que a criança possui internamente é mobilizado no instante que ela ouve um conto infantil (D.L.Corso & Mário, 2006). O olhar diferenciado e o lugar que o profissional se coloca durante a escuta é fundamental no processo terapêutico. Na psicanálise a escuta possui um lugar de destaque pelo fato de envolver as palavras ditas e as não ditas. Se por um lado o silêncio não diz nada diretamente, algo ele insinua, e o psicanalista acompanha os sinais deixados por ele (Alonso, 1988).O fato do profissional conseguir ouvir o desejo do inconsciente, já o coloca em um lugar diferenciado, pois a ele compete pontuar as possíveis divergências entre o consciente e o inconsciente mostrando ao paciente os conflitos e as possíveis razões deles e este movimento certamente irão reverberar no paciente.No contexto terapêutico, a escuta clínica das palavras que são ditas e também daquelas que são silenciadas, constitui-se em uma importante ferramenta do psicólogo no processo de ruptura com a interpretação analógica e re-significação das experiências vividas (Terêncio & Silva, 2016). Por meio desta experiência de Estágio Supervisionado I (ESE I) foi possível concluir que o papel do psicólogo é fundamental no que diz respeito ao acolhimento das vítimas de violência sexual e dos cuidadores por meio do PAVVS, que é um programa inserido na rede de proteção, além de facilitar a comunicação com os demais setores da rede.

 

 

Palavras-Chaves: Violência sexual, PAVVS, Acompanhamento psicológico, Criança.

 

 

Referências Bibliográficas

 

Alonso, S.L. (1988). A escuta psicanalítica. Recuperado de http://www2.uol.com.br/percurso/main/pcs01/artigo0120.htm.

 

Corso, D.L., & Corso, M.(2013). Fadas no divã: psicanálise nas histórias infantis. ArtmedEditora.

 

Habigzang, L.F., Hatzenberger, R. &Koller, S.H. (2012). Rede de apoio e proteção: encaminhamentos necessários frente à identificação de violência contra crianças e adolescentes. In Poletto, M., Souza, A.P.L. &Koller, S.H. (Org.), Direitos Humanos, prevenção à violência contra crianças e adolescentes e mediação de conflitos-Um manual de capacitação para educadores. 1ª Ed. (pp.218-223). Porto Alegre: IDEOGRAF.

 

Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Recuperado de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm.

 

Terêncio, M. & Silva, A.C. (2016). Por que uma escuta psicanalítica? Recuperado de http://marlosterencio.psc.br/por-que-uma-escuta-psicanalitica/.