Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

Tamanho da fonte: 
AS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE RUA SEGUNDO EMPRESÁRIOS DO BAIRRO CIDADE TAMANDARÉ EM MIRASSOL D’OESTE
Danielly Sales Nascimento, Lindinalva Alberta Nascimento, Jeysson Ricardo Fernandes da Cunha

Última alteração: 26-06-19

Resumo


Este trabalho discute as significações de comerciantes do bairro Cidade Tamandaré do município de Mirassol D’Oeste-MT sobre as pessoas em situação de rua que vivenciam os espaços daquela localidade. A pessoa em situação provoca em um estranhamento pelo fato de que, ao ocupar os espaços públicos, expõe o conflito e a desigualdade social existente. Assim, este estudo parte do princípio que existe uma certa negligência social para com pessoas e grupos em situação de rua, que acabam sendo invisibilizados nos espaços públicos e privados e são, de modo geral, tratados de maneira desumana e desigual a partir da lógica discriminatória ancoradas em representações sociais de ameaça à paz e que polui a paisagem dos espaços que ocupam. Desta forma, nota-se a importância de políticas públicas e pesquisas voltadas para as pessoas em situação de rua.  As pessoas em situação de rua acabam sendo culpabilizadas pela situação adversa que se encontra, no qual a sociedade passa a questionar essa prática e atribui uma culpa para os sujeitos, desconsiderando as questões históricas e sociais e designando as consequências apenas para o indivíduo de modo particularizado. Este estudo tem como ancoragem teórica a Teoria das Representações Sociais, pois contempla discussões acerca da produção do conhecimento social que grupos e sujeitos elaboram para dar significações para pessoas, situações ou coisas (MOSCOVICI, 2015; OLIVEIRA; WERBA, 2013; SÁ, 2004; LANE, 2012), em diálogo com estudos sobre a População em situação de rua (MATTOS; FERREIRA, 2004, ESCOREL, 2000; BARROS 2011; JODELET, 2002). Tem como sujeitos oito empresários do bairro Cidade Tamandaré, situado na cidade de Mirassol D’Oeste/MT, cujo comércio encontra-se nas proximidades da praça do bairro.  Adotou-se como instrumento de produção de dados a entrevista semiestruturada construída a partir de indicadores empíricos (SEVERINO, 2007; MARCONI, LAKATOS, 2017). Mesmos os dados foram processados por um software conhecido como IRAMUTEQ, que possibilita uma análise lexical dos discursos sendo, este, organizado de forma compreensível e visualmente clara por meio de representações gráficas pautadas nas análises lexicográficas organizadas em classes de segmentos de texto (CAMARGO; JUSTO, 2016). As classes processadas pelo IRAMUTEQ foram analisadas sob a perspectiva de núcleos de significações. Os léxicos formaram as classes analisadas pelo programa e foram submetidas a uma análise qualitativa, sendo possível a distinguir os núcleos de significação que possibilita uma compreensão dos sentidos e significados (AGUIAR; OZELLA, 2006). A análise lexical resultou na divisão do corpus em dois eixos distribuídos em seis classes, que serão apresentadas de forma decrescentes. No eixo I – Ausência de Instituições Competentes está presente a classe 6; e no eixo II – Subjetividade, rejeição e incômodo estão presentes as classes 2, 1, 5, 4 e 3. No eixo I está presente a Classe 6 – Pessoas em situação de rua entre o compadecimento humano e a punição, no qual encontramos discursos voltados para falta de instituições que desenvolvam projetos para retirar as pessoas da situação de rua. A partir do segundo eixo tem-se discursos voltados para os sujeitos em situação de rua, composta pela Classe 2 – Pessoas em situação de rua sem vínculos sociais; Classe 1– Pessoas em situação de rua entre o acolhimento e a rejeição; Classe 5 – Pessoas em situação de rua como incômodo urbano; Classe 4 – Pessoas em situação de rua entre sua opção em ficar ou falta de oportunidade; e a Classe 3 – Pessoas em situação de rua como seres invisíveis e mal intencionados. Portanto, os dados permitem pensar a respeito da exclusão social como um fenômeno histórico e estrutural na sociedade. As análises alcançadas nesse estudo possibilitam uma reflexão sobre os significados sobre as pessoas em situação de rua para os empresários da cidade ancoradas em significações de coitados, sentimentos de dó, piedade e medo, bem como a necessidade de um lugar para abrigar as pessoas em situação de rua pois sua presença é vista como uma forma de incômodo tanto para os clientes como para os próprios comerciantes do gênero alimentício do bairro que apresentam a punição como solução para o “problema” social da cidade.

 

Palavras-chave: Representações sociais; Pessoas em situação de rua; Cidade Tamandaré.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Wanda Maria Junqueira; OZELLA, Sergio. Núcleos de Significação como Instrumento para a Apreensão da Constituição dos Sentidos. In: AGUIAR, Wanda Maria Junqueira; OZELLA, Sergio. Psicologia ciência e profissão. PUC-SP, 2006, p.222-245.

BARROS, Alcides Alexandre de Lima. A problemática das ruas. In: BARROS, Alcides Alexandre de Lima. População em situação de rua: um olhar sobre a exclusão. São Paulo, Arteliterária, 2011.p.27-58.

BARROS, Alcides Alexandre de Lima. O perfil da população em situação de rua: pesquisa de dados sociais das comunidades do “povo em situação de rua”.  In: BARROS, Alcides Alexandre de Lima. População em situação de rua: um olhar sobre a exclusão. São Paulo, Arteliterária, 2011.p.132-157.

CAMARGO, Brigido Vizeu; JUSTO, Ana Maria. Tutorial para uso do software Iramuteq: Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires. Laboratório de Psicologia Social da Comunicação e Cognição – UFSC, Brasil, 2016.

ESCOREL, Sarah. Vivendo de teimosos: moradores de rua da cidade do Rio de Janeiro. In: BURSZTYN, Marcel (Org.). No meio da rua: nômades, excluídos e viradores. Rio de Janeiro: Garamond, 2000.p.139-171.

JODELET, Denise. Os processos psicossociais da exclusão. In: SAWAIA, Bader (Org.). As artimanhas da exclusão: Análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.p.53-66.

LANE, Silvia Tatiana Maurer. Linguagem, pensamento e representações sociais. In: LANE, Silvia T. M.; CODO, Wanderley (Orgs). Psicologia Social: o homem em movimento. 14º ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.p.32-39.

Marconi, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 7 ed. São Paulo: Atlas, 2010.

MATTOS, Ricardo Mendes; FERREIRA, Ricardo Franklin. Quem vocês pensam que (Elas) são? – Representação sobre as pessoas em situação de rua. Universidade São Marcos. Psicologia & Sociedade; 16(2): 47-58. Maio/ago.2004.

MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Traduzido do inglês por Pedrinho A. Guareschi. 11ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

OLIVEIRA, Fátima O. de; WERBA, Graziela C. Representações Sociais. In: STREY, Marlene Neves et al. (Orgs.). Psicologia Social Contemporânea: livro-texto. 21ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.p.104-117.

SÁ, Celso Pereira de. Representações Sociais: o conceito e o estado atual da teoria. In: SPINK, Mary Jane P. (Org.). O conhecimento no cotidiano: as representações sociais na perspectiva da psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 2004.p.19-45.

SEVERINO, Antônio Joaquim, 1941. Metodologia do trabalho científico. 23 ed. rev. e atualizado. São Paulo: Cortez, 2007.