Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Psicoativos naturais e o tratamento de toxicodependentes urbanos: uma comparação entre as concepções de farmácias étnica, alternativa e científica
Julia Teodoro Inouye, Lorena Elci Oliveira Coelho, Tabata Fonseca Mazetto, Luiz Fabrizio Stoppiglia

Última alteração: 05-07-19

Resumo


Introdução: A dependência de substâncias, conforme a Organização Mundial de Saúde (Genebra, 2006), afeta o cérebro e sua capacidade de controle do uso da mesma. Segundo os dados de 2005 do CEBRID, no Brasil cerca de 12,5% da população adulta em capitais é dependente de álcool, 10,1% é dependente de tabaco e 0,2-1,2% é dependente de drogas ilícitas como maconha, solventes e estimulantes. Essas dependências contabilizaram 9.5% dos prejuízos financeiros ao trabalhador em 2015, tendo chegado a 37% entre 1990 e 2015, sendo o terceiro fator mais prejudicial, atrás dos transtornos depressivos e ansiosos (BONADIMAN, 2017). Há, em todo o mundo, uma dificuldade em tratar toxicodendendentes, que sofrem com prejuízos sociais, mentais e recorrências comuns ao abuso de drogas lícitas e ilícitas. No Brasil, os que buscam tratamento são sobretudo homens (78%), muitos desempregados (47%), por volta de 36 anos, dependentes de álcool (82%), cocaína e crack (51%), maconha (41%) e sedativos (27%). Em média, 64% das pessoas que procuram tratamento são recorrentes (FALLER, 2014). Essas dificuldades levaram à adoção de práticas de medicina tradicional, especialmente as provenientes de comunidades indígenas brasileiras, que foram levadas para o ambiente urbano, onde encontram dificuldades de tratamento e doenças “do homem branco” para as quais foram adaptadas. Mesmo sem comprovação científica, desenvolve-se sobre essas práticas uma “medicina paralela” que extrapola fronteiras, veiculada em congressos, clínicas e praticantes buscados pela população.

Objetivos: Esse projeto pretende abordar o tratamento de toxicodependentes masculinos por uma clínica de Várzea Grande/MT, que oferece uma terapia baseada na combinação de Kambô (secreção da pele de uma rã amazônica), Ayahuasca (infusão alucinógena usada por tradições religiosas originadas na parte sul da Amazônia) e Iboga (preparações alucinógenas da raiz de uma planta sagrada da África Central). Nenhuma das três substâncias ou preparações é regulamentada pela Anvisa.

Metodologia: Entrevistaremos profissionais do consultório que fazem a aplicação dos alucinógenos, profissionais técnicos de clínicas de tratamento para dependentes químicos, ex-pacientes atendidos através dessa metodologia e fornecedores do Kambô, Ayahuasca e Iboga. Como ferramenta de coleta de dados, serão utilizadas entrevistas semiestruturadas, 2 versões do questionário SRQ-20 e 2 versões do formulário ASSIST (uma sobre as condições do paciente antes do tratamento e outra sobre suas condições pós-tratamento). As entrevistas serão voltadas para desenhar a concepção dos profissionais e pacientes acerca do modo de ação dos psicoativos utilizados, ou seja, a base de conhecimentos através da qual o tratamento é desenhado.

Desfecho: Para os fornecedores, profissionais e ex-pacientes, esse trabalho fará uma aproximação entre os conhecimentos que os motivaram a participar do tratamento e a literatura científica. O projeto investigará as concepções de fornecedores das substâncias, profissionais e ex-pacientes da clínica acerca da lógica do tratamento, seus resultados esperados e obtidos. Para os pacientes que passaram pelo tratamento, faremos um levantamento de ganhos e perdas relativos ao processo, avaliando a eficácia do procedimento frente às metodologias tradicionais. Essas informações serão contrastadas com o conhecimento científico atual sobre as preparações utilizadas, esperando-se que esse material produzido ajude a construir uma ponte entre essa “medicina paralela” e o conhecimento científico.

Referências:

BONADIMAN, Cecília Silva Costa, PASSOS, Valéria Maria de Azeredo, MOONEY, Meghan, NAGHAVI, Mohsen, & MELO, Ana Paula Souto The Burden of disease attributable to mental and substance use disorders in Brazil: Global Burden of Disease Study, 1990 and 2015. Revista Brasileira de Epidemiologia, v. 20, supl. 1, p. 191-204, 2017

CEBRID, II Levantamento domiciliar sobre o uso de drogas psicotrópicas no Brasil : estudo envolvendo as 108 maiores cidades do país, CEBRID - Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas: UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, 2006.

FALLER, Sibele, PEUKER, Ana Carolina, SORDI, Anne, STOLF, Anderson, SOUZA-FORMIGONI, Maria Lucia, CRUZ, Marcelo Santos, BRASILIANO, Sílvia, PECHANSKY, Flavio, & KESSLER, Felix. Who seeks public treatment for substance abuse in Brazil? Results of a multicenter study involving four Brazilian state capitals. Trends in Psychiatry and Psychotherapy, v. 36, n. 4, p. 193-202, 2014.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE GENEBRA. Neurociência do Uso e da Dependência de Substâncias Psicoativas. Ed. Roca, São Paulo, 2006.