Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, IX Mostra da Pós-Graduação

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PROCESSOS DESTRUTIVOS E PROTETORES RELACIONADOS À SAÚDE MENTAL DE TRABALHADORES RURAIS BRASILEIROS: UMA REVISÃO DE LITERATURA
Maelison Silva Neves, Wanderlei Antonio Pignati

Última alteração: 27-09-17

Resumo


A saúde mental no contexto rural tem sido objeto de muitas pesquisas no contexto brasileiro. Tais estudos são relevantes pelo fato de o Brasil ser um dos maiores produtores agropecuários, sendo expressivo o volume de exportação agrícola e de carnes, além da tendência do crescimento populacional nas áreas rurais. Supõe-se que os impactos do agronegócio sobre o meio ambiente, o processo de trabalho e modos de vida no meio rural têm repercussões sobre as condições de saúde mental dos trabalhadores nas regiões produtoras. Dessa forma, fez-se uma revisão sistemática nas bases do MEDLINE (via PubMed), Scopus, Literatura de Ciências da Saúde da América Latina e Caribe (LILACS), Biblioteca Virtual da Saúde e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) do Instituto Brasileiro de Informações em Ciência e Tecnologia. Foram utilizados os descritores “farm workers”, “rural workers”, “mental health” e “mental disorders” e seus correlatos em português (trabalhadores rurais, trabalhadores agrícolas, saúde mental, transtornos mentais)  tornando elegíveis estudos publicados nos últimos 10 anos (2007-2017), que descrevessem os transtornos mentais de trabalhadores rurais e os fatores relacionados, de abordagem quantitativa ou qualitativa, sendo excluídos artigos de revisão ou análise de dados indiretos que não permitissem distinguir as categorias profissionais. A busca foi realizada em junho de 2017. Para sistematização dos resultados, os trabalhadores dos estudos foram classificados em categorias de assalariados/temporários e pequenos proprietários e as culturas foram classificadas em hortifrutigranjeiros, cana-de-açúcar, fumo e grãos. Os resultados indicaram ocorrência frequente de sofrimento psicológico difuso, classificado como transtornos mentais comuns, acometendo principalmente mulheres e trabalhadores temporários. Os resultados indicaram necessidade de contextualização do tipo de cultura e natureza do vínculo com o trabalho (se pequenos proprietários ou trabalhadores assalariados/temporários) para compreensão dos fatores protetores e destrutivos das condições de saúde mental. Entre os trabalhadores proprietários, predominantemente das culturas de tabaco e hortifrutigranjeiros, o sofrimento mostrou-se mais relacionado a intoxicação por agrotóxicos e ao endividamento, prejuízos e injustiças sofridos pela exploração das indústrias fumageiras. Entre os trabalhadores assalariados ou temporários, as condições precárias de vida e trabalho, intoxicação por agrotóxicos, baixa escolaridade, desemprego, a pobreza e a intensificação do trabalho foram elementos relacionados à manifestação de sofrimento. Políticas Públicas voltadas para a população do campo, garantia dos direitos trabalhistas, promoção da igualdade de gênero, trabalhar na própria terra e ter pagamento justo pela produção foram elementos destacados como fatores protetores. Conclui-se que as pesquisas sobre saúde mental no contexto rural brasileiro corroboram com estudos que indicam a relação da intoxicação por agrotóxicos com o surgimento de agravos à saúde mental dos trabalhadores rurais cujo sofrimento é intensificado pela precariedade das condições de vida, trabalho, ausência de políticas públicas e violência contra as mulheres.