Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Se soubesse que era assim não tinha vindo: Sofrimento social e migração
Mariel Marostica Fernandes, Silvia Angela Gugelmin

Última alteração: 08-10-18

Resumo


Este trabalho fundamenta-se num estudo qualitativo desenvolvido no período de junho de 2017 a junho de 2018 com imigrantes que partiram do Haiti buscando concretizar novos e acalentados projetos no Brasil e vêm se direcionando desde o ano de 2012 para o estado de Mato Grosso, sobretudo, a capital Cuiabá, lócus do processo investigativo. Embasado na praxiologia tem como objetivo central abordar os sofrimentos vivenciados por esses imigrantes, agentes sociais, em suas trajetórias migratórias e existências cotidianas, posto que de forma velada ou direta perpassam seus discursos e práticas. O Sofrimento na Migração convida-nos a uma reflexão que contempla campos de conhecimento na área de saúde coletiva em sua interface com as ciências sociais, médicas, econômicas, políticas, psicológicas, dentre outras, problematizando o encontro entre saberes e fazeres diferenciados. Suscitando questões que levam a compreensão na contemporaneidade das dinâmicas que engendram as migrações, os sentimentos, sofrimentos e adoecimentos deles decorrentes. Como aporte metodológico utilizou-se da história de vida e como técnicas: observação e entrevistas semi - estruturadas realizadas com dez imigrantes, sendo cinco do sexo masculino e cinco de sexo feminino, com faixa etária entre de  23 a 45 anos e tempo de permanência no Brasil que variava entre seis meses e seis anos. Suas histórias de vida apontam trajetórias semelhantes, ocupam no espaço posições desfavoráveis com relação à distribuição dos recursos econômicos e sociais, assim como grande parte da população no Haiti; um país que mediante a política neoliberal posta em marcha pela globalização, acumulou problemas sociais e econômicos graves, situações “que dificultam a sobrevivência” em que migrar é uma possibilidade, muitas das vezes necessária, quando laços com seu universo social, econômico, cultural são desfeitos, mesmo que temporariamente (Bourdieu, 1998). No Brasil, via de regra, estas dificuldades vêm se reproduzindo, além disso, têm obstáculos para acessar serviços públicos que os ampare nos percalços da vida e se deparam com outro ethos, diferentes visões de mundo, concepções, valores e comportamentos. Se soubesse que era assim não tinha vindo - uma expressão constantemente pronunciada pelos imigrantes, representado o sofrimento vivenciado, o arrependimento inicial da vinda ao Brasil, à desesperança e o desejo de voltar para o Haiti, ou se deslocarem para outro lugar. Nesse contexto os imigrantes haitianos estão expostos a forças estruturais e a violências cotidianas, como a pobreza, fome, a exclusão, a solidão e o desemprego, condições que geram sofrimentos considerados sociais, posto que se originam de choques de interesse, desigualdades, contradições e estilos de vida (Bourdieu, 2011), configurando espaços de exclusão que acometem suas vidas (Castel, 1998). Um sofrimento verificado em condições e configurações históricas, culturais e sociais específicas, resultante do que o poder político, econômico e institucional produz nas pessoas (Kleinman et al., 1997).  Ou seja, o sofrimento social é social não somente porque é gerado por condições sociais, mas porque é, como um todo, um processo social corporificado nos agentes sociais imigrantes, inscritas em seus corpos em gestos, olhares e escolhas. Uma resposta a dor vivenciada existencialmente, em decorrência da migração, corporificados ou não em adoecimentos.


Palavras-chave


Haiti; Sofrimento Social; Migração

Referências


1. Bourdieu P. Um analista do inconsciente. In: Sayad A. Imigração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: Edusp; 1998. p. 9-12.

2. Bourdieu P, coordenador. A miséria do mundo. 8. ed. Rio de Janeiro: Vozes; 2011.

3. Castel R. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes; 1998.

4. Kleinman A, Das V, Lock M. Social suffering. Berkeley: University of California Pres; 1997.