Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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SILENCIAMENTO DA VOZ DO SUJEITO: OBSERVAÇÕES INICIAIS DO CAMPO DE PESQUISA.
Andreia De Fatima Dembiski, Vera Lúcia Blum

Última alteração: 08-10-18

Resumo


Estamos em um momento da história em que cada vez mais se recorre à justiça para solucionar alguma demanda, seja ela relacionada a conflitos familiares, acesso à saúde, regularização de documentos, enfim, a sociedade brasileira anseia por direitos muitas vezes básicos. Em busca desses direitos é que o cidadão procura na Defensoria Pública um pedido de socorro. A Defensoria Pública do Estado é um órgão que tem como atribuição cumprir o dever constitucional de assegurar aos cidadãos de menos recursos o acesso à justiça, e defesa de seus direitos e interesses. Diante do atual cenário em que e encontra nossa sociedade pensamos que o homem ou a mulher na qualidade de cidadão encontram dificuldades até mesmo diante da Lei. O cidadão não está sendo ouvido. A voz do sujeito, quando ouvida, é escutada com base nas relações pessoais e afetivas que por ventura i usuário tenha estabelecido com o outro autoridade. O que nos colocamos a pensar é: se existe um órgão que garante ao cidadão sem recursos financeiros o direito do acesso à justiça se é direito do cidadão enquanto membro de uma sociedade ter um representante de sua voz diante da lei, qual seria o motivo desse cidadão não estar sendo ouvido? Partiremos da hipótese de que escutar a voz do sujeito exige reconhecer o seu saber acerca do que esse cidadão considera ser o melhor para si. Para que isso aconteça, faz-se então necessário que o agente institucional nessa instituição de justiça afaste-se de seus próprios ideais de cura e salvação previstos e normatizados nos famigerados manuais determinantes do que é qualidade de vida. Esse é um exemplo corriqueiro com o qual nos deparamos todos os dias no campo de pesquisa, sujeitos tendo sua voz anulada por um saber supostamente qualificado acerca do que é melhor para ele.  Ouvir a voz do sujeito não significa negar seu sofrimento social, tampouco desconsiderar que esse sujeito passa por necessidades básicas. Ouvir a voz do sujeito significa levar em consideração seu padecimento encontrando por via de seu discurso uma brecha para aquilo que ele mesmo quer e por aquilo pelo qual deseja lutar. São esses cidadãos, que embora livres, encontram-se desamparados, o público atendido pela Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso. Esses cidadãos estão marcados pelo silenciamento que o discurso competente engendra e perpetua. O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma reflexão crítica acerca do que vem sendo observado no campo da pesquisa que está sendo desenvolvida na Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso por meio do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso. A pesquisa intitulada A voz do sujeito na Defensoria Pública do Estado de Mato Grosso tem como principal objetivo investigar como a demanda do sujeito está sendo acolhida e a partir daí quais os encaminhamentos são dados às demandas apresentadas.  O que temos observado no campo da pesquisa são situações em que o discurso competente ou o saber especializado atravessa o pedido de ajuda do usuário com a proposta de soluções ou encaminhamentos que silenciam sua voz.


Palavras-chave


Voz do sujeito; Justiça; Cidadão.

Referências


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