Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, X Mostra da Pós-Graduação: Direitos Humanos, trabalho coletivo e redes de pesquisa na Pós Graduação

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Ser mulher: a clínica psicanalítica a favor da escuta e produção de sentido.
Renata Garutti Rossafa, Vera Lúcia Blum

Última alteração: 22-10-18

Resumo


No período histórico entre os séculos XVI e XVIII, conhecido como modernidade, o significado de mulher estava quase que exclusivamente atrelado ao significante mãe, destinando às mulheres à vida dentro do lar. O percurso da história que resultou no que se convencionou chamar de pós-modernidade, radicalizou mudanças no campo das instituições socialmente construídas. Tais mudanças ocasionaram numa ampliação na oferta de significantes atribuídos às mulheres disponíveis na cultura. Se antes o ideal de mulher era aquela que vivia para o lar, para os filhos e o marido, agora o ideal de mulher a ser sustentado é de profissional de sucesso que concilia as demandas da maternidade com a carreira. Esta pesquisa empreende uma tentativa de pensar às formas de subjetivação da mulher do cotidiano, privilegiando o olhar para o campo de lutas interno da mulher, na construção de uma metapsicologia que permitisse pensar a dinâmica psíquica associada à sustentação do ideal contemporâneo de mulher. Para tanto, foi realizado um traçado teórico com algumas das conquistas dos movimentos feministas em prol da emancipação das mulheres, destacando as ideias de algumas autoras, entre elas Mary Wollstonecraft e Simone de Beauvoir. Ao mesmo tempo, o campo experimental da pesquisa buscou ouvir o que as mulheres têm a dizer sobre as questões cotidianas que as envolvem. Foi composto um espaço de livre-falar em que frequentaram cinco mulheres em atendimento no Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) do curso de Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ao todo, realizaram-se sete encontros, em que temas associados à vida cotidiana da mulher foram debatidos pelas mulheres presentes. As falas foram registradas e posteriormente analisadas na perspectiva psicanalítica. Esta é uma pesquisa orientada pelo método psicanalítico, cujo interesse foi estabelecer uma análise semiológica do discurso construído no campo experimental da pesquisa. O processo de construção de dados serviu-se da interpretação, ao analisar elementos inconscientes que foram sendo revelados na relação entre pesquisadora e objeto de estudo. Os resultados obtidos dizem respeito a um elemento inconsciente da “ausência” a que as mulheres parecem estar sujeitas. Uma relação que não conta com o outro, que dificilmente surge na cena e quando surge é com muita insatisfação. Um modo de ser inconsciente do repertório psíquico das agentes da pesquisa que foi ativamente solicitado no processo de formação do campo experimental. A pesquisa “Ser mulher: a clínica psicanalítica a favor da escuta e produção de sentidos” integra a linha de pesquisa “Processos clínicos e contextos socioculturais” do Programa de Pós-graduação em Psicologia (PPGPsi) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Palavras-chave


Método psicanalítico de pesquisa. Mulher cotidiana. Metapsicologia

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