Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, 1ª Jornada Regional de Saúde Mental Teles Pires "Produzindo conhecimento para que ninguém fique só"

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Ambiente universitário como fator desencadeador de sofrimento psíquico
AMANDA LIMA DE OLIVEIRA, EMILIANE SILVA SANTIAGO

Última alteração: 19-10-17

Resumo


Ambiente universitário como fator desencadeador de sofrimento psíquico

Amanda Lima de Oliveira¹, Emiliane Silva Santiago²

RESUMO. O ambiente acadêmico está entre os fatores de estresse que vem corriqueiramente ganhando espaço no âmbito dos transtornos mentais, desse modo, o presente estudo tem como proposta avaliar características de vulnerabilidade ao desenvolvimento de sofrimento ou conflitos psíquicos em estudantes universitários, e a influência do ambiente universitário como fator desencadeador desse processo. Trata-se de um estudo quantitativo e transversal, cuja população estudada foi constituída por acadêmicos matriculados nos cursos do período noturno de uma universidade estadual no norte de Mato Grosso. Como instrumento de coleta de dados, foram utilizados questionários autoaplicáveis e anônimos, através da ferramenta online “formulário do Gmail”, para sondar a acerca do bem-estar e do enfrentamento de dificuldades vivenciadas na academia. Do total de respostas obtidas no questionário, 65,0% dos estudantes afirmam que a carga horária de atividades é um fator de estresse e/ou tensão que pode prejudicar seu bem-estar, sendo que a maioria relataram apresentar traços de mal estar físico-emocional. Com base nos resultados obtidos foi possível verificar que o ambiente acadêmico é um forte preditor para o desenvolvimento de sofrimento psíquico, uma vez que os próprios entrevistados declaram a percepção de que esse ambiente trouxe para suas vidas grande sobrecarga de atividades, estresse e tensão.

 

Palavras-chave: Estudantes universitários, Transtornos mentais, sobrecarga de atividades, Saúde Mental.

 

Introdução. Doenças Mentais vêm constituindo um dos mais evidentes problemas de saúde em todo o mundo, entre elas a depressão1, que afeta pessoas em qualquer idade e/ou estado socioeconômico. Dentre outros, fatores sociais, culturais, econômicos políticos e ambientais são poderosos determinantes para o desenvolvimento de Transtornos Mentais.

O ambiente acadêmico está entre os fatores de estresse que vem corriqueiramente ganhando espaço no âmbito destes Transtornos. Estudos desenvolvidos em diferentes partes do mundo reportam uma grande prevalência de depressão no ambiente acadêmico2-4 pois este constitui-se como um momento de transição, onde o universitário precisa enfrentar situações estressantes e nem sempre é disponibilizado uma assistência à esses indivíduos, colocando-os numa situação de vulnerabilidade5.

O trabalho tem como objetivo avaliar características de vulnerabilidade ao desenvolvimento de sofrimento ou conflitos psicológico e/ou emocionais em estudantes universitários, e a influência do ambiente universitário como fator desencadeador desse processo.

 

Material e método. Trata-se de um estudo quantitativo e transversal, cuja população estudada foi constituída por acadêmicos regularmente matriculados nos cursos do período noturno de uma universidade estadual no norte de Mato Grosso. Foram excluídos acadêmicos que estavam na primeira fase dos cursos, devido ao pouco tempo de iniciação a vida acadêmica. O projeto foi submetido à apreciação do Comitê de Ética em Pesquisa.

Como instrumento de coleta de dados, foram utilizados questionários autoaplicáveis e anônimos, através ferramenta online “formulário do Gmail”, para sondar a acerca do bem-estar e do enfrentamento de dificuldades vivenciadas na academia. Ao acessarem a plataforma, estava disponível, no cabeçalho do questionário, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que explicou o objetivo da pesquisa e a garantia do sigilo e anonimato da identidade do estudante, que ao aceitar sinalizou com a marcação do “X” na alternativa “sim” referente a leitura e entendimento do mesmo, procedimento necessário, para dar continuidade ao preenchimento do formulário. Após ampla divulgação, por um mês foram obtidas cento e três respostas no questionário on-line, para a realização da análise quantitativa das respostas.

 

Resultado. Do total de 103 respostas obtidas no questionário on line, 69,9% são correspondentes ao sexo feminino e 30,1 ao sexo masculino, 13,6% se refere a primeira faixa etária (até 18 anos); 60,2% a segunda (19 a 29 anos) e 26,2% a terceira (30 anos ou mais). Sendo que 67,7% dos acadêmicos afirmaram morar com os pais.

Ressalta-se que 65,0% afirmam que a carga horária de atividades é um fator de estresse e/ou tensão que pode prejudicar seu bem-estar. A maioria (63,0%) considera o tempo insuficiente para realização das atividades acadêmicas, o que pode estar associado com o fato de que 78,0% trabalham durante o dia. Como descrito na tabela 1 a maioria dos estudantes apresentam frequentemente traços de mal estar físico e/ou emocional.

Parâmetros Valor (%)

Falta de concentração 75,0
Irritabilidade ou estresse 74,0
Preocupação excessiva 82,0
Desmotivação e impotência 73,0
Sentimento de angústia 62,2
Sensação de tristeza 57,0
Cansaço e tensão muscular 88,0
Insegurança e medo 69,0

Tab. 1. Os valores são referente a representação percentual de traços de mal estar físico-emocional relatos pelo total de 103 estudantes.

 

Discussão. Na fase de adolescência/início da vida adulta, período que coincide com o ingresso dos jovens no ambiente acadêmico, é muito comum que situações estressantes estejam mais presentes no seu cotidiano, as quais são preponderantes em episódios depressivos maiores6. No presente trabalho os entrevistados relatam a sobrecarga de atividades do ambiente acadêmico como um fator de estresse e tensão.

Considerando que a maioria dos acadêmicos entrevistados também trabalham ao longo do dia, é válido ressaltar que este fator pode contribuir para um menor desempenho acadêmico, tal como, mau desempenho físico e mental, uma vez que como já reportado a administração do tempo para a realização de atividades está entre um dos principais fatores desencadeantes do estresse7. Assim, é sugestivo que o jovem que trabalha a longo do dia e estuda à noite tem maior probabilidade de desenvolver algum tipo de estresse persistente, o que pode vir a prejudicar sua saúde mental.

Em um estudo prévio, demonstrou-se que grande número de jovens universitários apresentam Transtornos Mentais Menores (TMM), sendo que o número de jovens com TMM é significativamente maior entre aqueles que sentem-se sobrecarregados com as tarefas acadêmicas. Neste mesmo estudo, os autores apontam que o número de jovens com TMM é maior entre aqueles que não moravam com os pais7, o que sugere que o afastamento do convívio familiar pode gerar conflitos e/ou sofrimento.

Contudo, nosso estudo mostra que a maioria dos entrevistados mesmo morando com os pais apresentam alguns traços relacionados com TMM, tais como dificuldade de se concentrar, irritabilidade e tensão muscular, sintomas que segundo o DSM-5 são sintomas de TMM6. Portanto pode-se supor que, no presente estudo, a sobrecarga foi o fator preponderante para desencadear esses traços e não o afastamento do convívio familiar. É possível que outros fatores possam estar relacionados, desse modo, novos estudos serão necessários para melhor compreensão.

Embora preliminar, o conjunto de dados aqui apresentados mostra que o ambiente acadêmico é um forte preditor para o desenvolvimento de sofrimento psíquico, uma vez que os próprios entrevistados declaram a percepção de que esse ambiente trouxe para suas vidas grande sobrecarga de atividades, estresse e tensão. Dessa forma, vale ressaltar a necessidade de valorizar e priorizar a importância da saúde mental, elaborando novas políticas no âmbito da intersetorialidade. Nesse sentido, a educação tem um importante papel, visto que uma parte significativa do dia, portanto, das relações interpessoais e conflitos (emocionais, psicológicos) pessoais são vividos dentro da Escola ou da Academia.

 

Referências

1. Kessler RC, Bromet EJ. The epidemiology of depression across cultures. Annu Rev Public Health. 2013; 34:119-138. doi: https://doi.org/10.1146/annurev-publhealth-031912-114409

 

2. Jones NP, Papadakis AAHogan CMStrauman TJ. Over and over again: rumination, reflection, and promotion goal failure and their interactive effects on depressive symptoms. Behav Res Ther. 2009; 47(3):254-259. doi:  https://doi.org/10.1016/j.brat.2008.12.007

 

3. Khan LG, Razvi NAnjum FSiddiqui SAGhayas S. Effects of various excipients on tizanidine hydrochloride tablets prepared by direct compression. Pak J Pharm Sci. 2014: 27(5):1249-254.

 

4. Kabrita CS, Hajjar-Muça TA. Sex-specific sleep patterns among university students in Lebanon: impact on depression and academic performance. Nat Sci Sleep. 2016: 8:189-196. doi: https://doi.org/10.2147/NSS.S104383

 

5. Malagón-Oviedo RA, Czeresnia D. conceito de vulnerabilidade e seu caráter biossocial. Interface (Botucatu). 2015; 19(53):237-249. doi:10.1590/1807-57622014.0436

 

6. American Psychiatnc Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtorno5 DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014, 948p.

 

7. Facundes VLD, Ludermir AB. Common mental disorders among health care students. Rev Bras Psiquiatr. 2005; 27(3):194-200. doi: http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462005000300007

 


Palavras-chave


Saúde Mental; Estudantes universitários.