Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, Semana Acadêmica 2016

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DESCORTINANDO CONCEITOS MATEMÁTICOS FRENTE AOS ESTUDANTES VISUAIS
Áurea Santana Bueno, Anderson Simão Duarte

Última alteração: 12-09-16

Resumo


INTRODUÇÃO

A relação de afinidade de estudantes de qualquer modalidade de ensino com a Matemática tem apresentado barreiras quase que intransponíveis. Assim, esse texto objetiva desvelar possibilidades para rompimento das dificuldades que os visuais[4] enfrentam em virtude do não atendimento às suas necessidades educativas que vão se acumulando ao longo da sua trajetória escolar. Tornando a matemática um mundo oculto para esses sujeitos.

Segundo a professora  do curso de Licenciatura em Matemática, é possível entender a matemática sem dificuldades, dando uma excelente demonstração de como isso é possível. Mas, é consenso entre os estudantes a opinião de que a matemática seja uma das disciplinas mais difíceis de se aprender, assim como qualquer outra que tenha relações de ordem numérica, como, por exemplo, a Física. Em virtude disso, também é comum presenciar professores dizerem que é difícil e complicado ensinar conceitos matemáticos a estudantes visuais.

Infelizmente, essa concepção negativa em relação à matemática não advém do nada, mas sim do ensino secularizado desprovido de significado e de lógica tanto para quem ensina, quanto para quem aprende. A presente geração evoluiu e com essa evolução não aceita mais passivamente o ensino imposto como acontecia no passado não distante, visto que essa prática ainda está presente em nossas salas de aula.

Sendo assim, o presente texto objetiva também, incentivar os profissionais da educação em geral, não apenas da área da matemática, mas especialmente dela, a reverter esse quadro de aversão à disciplina. Para isso, é necessário que estes profissionais se apropriem não só de conhecimentos específicos, mas também da ética profissional que fará com ele respeite o outro no cumprimento do seu papel enquanto professor, tendo consciência de que é sua, a responsabilidade do atendimento às necessidades educativas do aluno.

 

MATERIAIS E MÉTODOS

Quanto à metodologia trata-se da observação em um encontro de acadêmicos/as bolsistas do Programa Institucional de Bolsas para Iniciação à Docência (PIBID) da Letras-Libras com acadêmicos do curso de graduação em licenciatura em Matemática. O referido encontro aconteceu no dia 8 de agosto de 2016 na sala do laboratório de matemática. O encontro constitui-se de dois momentos: no primeiro, com a presença de todos, houve um momento de socialização entre os acadêmicos no qual todos puderam externalizar suas inquietudes referentes a cada área de conhecimento na perspectiva de troca de saberes. De um lado os futuros docentes de matemática com a preocupação de como irá compartilhar experiências com estudantes visuais sem o conhecimento da Libras. E de outro lado os acadêmicos da Letras-Libras que sabem a língua dos visuais, mas desconhecem a lógica e a profundidade dos conceitos matemáticos.

No segundo momento, estando presente os cinco acadêmicos visuais, os professores coordenadores e mais dois estudantes ouvintes; a professora doutora em matemática utilizando o geoplano como recurso prático ministrou uma aula numa rápida demonstração, por exemplo, de como ensinar alunos visuais a desenhar, identificar e reconhecer figuras geométricas planas (quadrado, retângulo e triângulo), calcular áreas dessas figuras, calcular raiz quadrada e ainda entender a lógica da raiz quadrada, por meio do geoplano.

Na aula observada foram utilizados os seguintes materiais: elásticos de borracha, geoplano em 3D confeccionados de base madeira e pregos fixados em intervalos igualmente distribuídos os quais representam uma medida exata e de acordo com a área da madeira utilizada, pois haviam vários tamanhos. Os pregos foram fixados formando uma espécie de malha sobre a madeira. Os elásticos serviam para manusear sobre a peça montando as figuras de acordo com o que a professora solicitava.

 

RESULTADOS E DISCUSSÕES

A aula foi mediada em língua portuguesa oralizada e interpretada em língua de sinais pelo professor doutor em educação do curso de graduação Letras-Libras, licenciatura, que aliada ao uso do material concreto potencializou a apropriação dos conceitos matemáticos pelos estudantes visuais. Assim, fica evidente que o conhecimento da língua de sinais é imprescindível à docência, tendo em vista ao atendimento aos visuais. Quando não, como nesse caso, é indispensável a presença do intérprete na mediação da língua.

No decorrer da aula foram trabalhadas algumas atividades com a finalidade de demonstrar como se utiliza o geoplano para compartilhar conceitos matemáticos de uma forma lúdica, mas que viabilize a abstração. Pois, de acordo com Machado,

[...] o geoplano facilita o desenvolvimento das habilidades de exploração espacial, comparação, relação, discriminação, seqüência, envolvendo conceitos de frações e suas operações, simetria, reflexão, rotação e translação, perímetro, área. O geoplano é um meio, uma ajuda didática, que oferece um apoio à representação mental e uma etapa para o caminho da abstração, proporcionando uma experiência geométrica e algébrica aos estudantes ([2000], p. 01).

Contudo, a dimensão dessa aula superou a expectativa de todos ali presentes. De um lado os visuais curiosos e surpresos pela forma como o aprendizado estava sendo mediado. Do outro lado os professores que contemplavam a concretização desse aprendizado. Sabemos que essa prática pedagógica é extremamente significativa para qualquer aluno, para os visuais então, é determinante do seu aprendizado. Considerando que essa é a única forma de compreensão para esses alunos.

Tanto é, que foi notória a expressão de felicidade nas expressões de cada um ao compreender alguns conceitos matemáticos que ali fora ensinado. Para a maioria deles, os visuais, o aprendizado aconteceu ali, para outros apenas consolidou. Mas, sem dúvida alguma, pode-se afirmar que nenhum deles tiveram contato com essa forma de ensino até então, muito menos com o geoplano.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A importância de instrumento como geoplano é que possibilita a transferência do conteúdo do livro e da lousa para a dimensão 3D e como já é fato comprovado que por meio do manuseio de materiais concretos como instrumentos didáticos potencializa o aluno à formulação de hipóteses enquanto desenvolve sua aprendizagem de forma autônoma.

Assim, diante do observado na expressão e na fala desses alunos, como pedagoga, considero que essa experiência constituiu-se num rico momento em que compartilhamos saberes e experiências. Enquanto os observava nossos pensamentos aceleravam diante das possibilidades de ensino da matemática ali contempladas. Constata-se que o uso do geoplano em sala de aula é um recurso didático bastante consistente para o ensino de vários conceitos matemáticos.

Na verdade, a novidade não foi só para aqueles alunos, para nós também que o conhecia apenas no formato 2D. Conseguimos ampliar nossos leque de possibilidades de ensinar não só alunos visuais. Vale ressaltar que uma vez que o/a professor/a busca contemplar os alunos visuais usando de recursos que estimulem a sua percepção visual, o aluno ouvinte é o que mais vai se beneficiar dessas estratégias, visto que este apreende o mundo pelos canais de recepção oral-auditivo e também visual. A questão é: Por que então os visuais, geralmente, são desconsiderados pelos professores no planejamento de suas aulas?

Em resposta a essa questão pode-se afirmar que esse quadro deve-se mais uma vez ao despreparo desses profissionais que mesmo egressos de uma universidade (UFMT) reconhecida e tida como a que oferta ensino de maior qualidade, ainda assim as grades curriculares dessas licenciaturas não dão conta de suprir as necessidades formativas desses profissionais.

Outra grande dificuldade pode-se dizer que para assumir uma postura como essa exige do profissional um planejamento com maior antecedência do que as aulas tidas como “normais”. Todavia, cabe ao educador estar ciente e consciente do seu papel e de que esse é o caminho sem erro, caso pretenda alcançar o objetivo de suas aulas que é ou deveria ser garantir aos alunos, sem exceção, o direito à aprendizagem.

Assim, como resultados consideramos pertinente compartilhar nesse trabalho essa experiência fantástica que possibilita aos visuais o descortinamento de conceitos matemáticos que requer grande capacidade de abstração para compreensão dos mesmos. Na perspectiva de que num futuro bem próximo essas estratégias pedagógicas façam parte do cotidiano da escola, efetivamente. Dessa forma, todos saem ganhando inclusive o professor a quem, exclusivamente, cabe o papel de efetivar o direito de aprendizagem do aluno seja ele visual ou ouvinte.

 

PALAVRAS-CHAVE: Geoplano. Recursos Visuais. Materiais Lúdicos.

4 Termo que se refere à pessoa com surdez, proposto por Duarte (2016) em substituição ao termo surdo que, historicamente, vem carregado de estigmas que marcam a deficiência do sujeito. Todavia, o termo visual o caracteriza pela sua potencialidade de aquisição linguística.


Palavras-chave


Geoplano. Recursos Visuais. Materiais Lúdicos.

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