Sistema de Eventos Acadêmicos da UFMT, VIII Semana de Psicologia da UFMT

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Inserção Ecológica: uma metodologia em pesquisa
Edirlene Giane Antunes De Sá, Paola Biasoli Alves

Última alteração: 30-06-19

Resumo


Defender, perpetuar, refutar e (des)construir ciência não é tarefa fácil. Quando há a escolha por este caminho supõe-se o entendimento de que, além da dedicação, esta tarefa exige do cientista conhecimentos acerca dos processos envolvidos. A ciência, em suas idas e vindas, tem como uma de suas características o distanciamento do senso comum, utilizando para isto instrumentos cada vez mais precisos. Para se retratar a realidade utilizando a ciência como “lente”, o pesquisador necessita de uma teoria que ampare o que foi observado empiricamente, além da utilização de metodologia e métodos adequados, validados, e que “conversem” com o modelo teórico utilizado. Na Psicologia as propostas de pesquisas científicas estão atreladas às investigações dos fenômenos humanos nos campos intrapessoais, subjetivos, interpessoais e/ou interacionais. Partindo deste pressuposto, este trabalho tem como objetivo discorrer sobre a Inserção Ecológica (IE) como metodologia para ser utilizada em pesquisas científicas cuja condição essencial para realização é a presença do Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano (MBDH) de Urie Bronfenbrenner, idealizador e principal teórico. A primeira acepção sobre a IE ocorreu em 2003, quando foi proposta, sistematizada e desenvolvida por Ceconello e Koller. Constantes revisões sobre o MBDH foram realizadas por Bronfenbrenner e seus colaboradores, entretanto nunca houve uma proposta metodológica do autor que pudesse ser operacionalizada em sua perspectiva teórica. A IE veio ao encontro desta operacionalização, possibilitando não apenas observar, estudar e avaliar o desenvolvimento humano na perspectiva do MBDH, mas de experimentá-lo durante o processo de pesquisa. O MBDH apresenta como dimensões centrais, quatro elementos teóricos primordiais: Processo, Pessoa, Contexto e Tempo (PPCT), conhecidos como modelo PPCT, todos inter-relacionados e atrelados à questão do desenvolvimento humano. Resumidamente, podem ser assim conceituados: processo – a interação ocorrida no ambiente  de maneira regular e por longo período; pessoa – ser biopsicológico que age e ao mesmo tempo é produto/resultado da “inter-ação” entre os quatro elementos; contexto – subdividido em quatro níveis de interação (microssistema, mesossistema, exossistema e macrosistema), que se encaixam e que irão compor o meio ambiente ecológico e por último o tempo – apontado como elemento fundamental  nos processos proximais, examinando a influência do que se altera ou permanece durante do ciclo de vida. A IE surgiu como proposta de que, na realização de pesquisas utilizando o MBDH, ela seja empregada como metodologia para entrar em contato com o objeto a ser estudado, adentrando no PPCT que envolve o objeto, possibilitando com isto um conhecimento mais próximo da realidade. Em outras palavras, é uma metodologia que possibilita ao pesquisador sua inserção no contexto de investigação, conhecendo os fatores de risco e proteção dentro e fora das famílias abordadas. Para isto são necessárias observações em campo, por intermédio da interação no contexto da pesquisa, com seu registro em um instrumento denominado diário de campo. Tal ferramenta estratégica consiste no apontamento do pesquisador de suas observações por intermédio da escrita ou da gravação, além do uso das entrevistas informais e/ou formais e outros instrumentos criados para o objeto específico a ser estudado. Autoras e autores revelam que o diário de campo acaba se tornando um instrumento de grande valia para a pesquisa, auxiliando inclusive na análise dos resultados. Mas então qual a diferença entre a IE e a etnografia ou outros métodos onde os pesquisadores se inserem no campo de investigação? A diferença está na observação do desenvolvimento humano tendo por base os quatro elementos do MBDH, ou seja, na utilização de uma metodologia que possui como embasamento teórico o MBDH na compreensão da realidade (objetividade/subjetividade). A IE deverá ser empregada pelos pesquisadores em razão de sua interlocução com a proposta teórica. Pode-se afirmar que não se trata de uma metodologia exclusiva da ciência psicológica, mas tem sido empregada por outros saberes como a enfermagem por exemplo, que a tem utilizado em suas pesquisas. Estudiosos apontam que a IE possibilita um novo olhar do pesquisador que apreenderá tanto as características dos envolvidos como também o ambiente no qual está inserido. Neste trabalho, o objetivo não é o de esgotar o assunto IE, mas o de concatenar esclarecimentos sobre o conceito, socializando esta proposta metodológica para os diversos saberes coletarem dados e consequentemente produzirem/aperfeiçoarem ciência.

Palavras-chave: Inserção Ecológica, metodologia, Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano.

 

Palavras-chave: Inserção Ecológica, metodologia, Modelo Bioecológico do Desenvolvimento Humano.

 

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